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B-side | A Vida Acontece

22:43


Eu já começo este post estarrecida: enquanto procurava o novo clipe da Beyoncé para postar, não achava de jeito nenhum! A primeira coisa que pensei era que o youtube tinha excluído o vídeo. Mas depois de muito procurar, descobri que o clipe agora, depois das polêmicas, está "escondido", ou seja, só consegue visualizar quem tem o link. Algo de muito estranho está acontecendo!
Mas não temam, povo meu! Eu fiz minha pesquisa e o clipe está no post pra que todos possam assistir.

Queen B lançou há pouco um clipe que está causando reboliço desde o dia de sua estreia.
O clipe "Formation" traz o empoderamento da mulher negra, bem como do povo negro, que sofre todos os dias por trazerem na pele algo que não é desejado pela sociedade: sua cor.



Querida, esse foi o despertar da ira dos políticos republicanos- já bem conhecidos por apresentarem ideais conservadores-, bem como o ódio de muitos políticos espalhados pelo mundo.
Entenda, apesar da abolição da escravatura nos Estados Unidos (EUA) ter acontecido por volta de 1850, o país sofreu com a segregação racial, protegida por lei, até 1970. Você leu certo, 1970! Isso é mais ou menos 20 anos antes de você nascer. Parece meio surreal, não é mesmo?!
A política funcionava em todos os âmbitos, os negros deveriam ficar separados dos brancos, fosse em escolas, bairros, ruas... E ái se um negro fosse pego bebendo água em um bebedor público destino aos brancos! O negócio era feio assim mesmo!
E isso nem era o pior! Foi criado um grupo chamado Ku Klux Klan, apelidado de KKK, que tinha como política norteadora a supremacia da cor branca e do protestantismo*. Desde 1865, perseguiam todos os que não se encaixavam nesses padrões, ou seja, os negros. Esse clã era (claramente) racista, totalitarista e extremistas.
E se agora você tá pensando "Gente! Essa galera era louca igual os nazistas!" Você está certíssimo!

Vários movimentos negros de resistência foram surgindo, a fim de trazer proteção e igualdade a comunidade. Um grande exemplo são os Panteras Negras. Para melhor entendimento, nada mais justo que colocar os seus objetivos, discursado pelos próprios membros:
"-Nós queremos liberdade. Queremos poder para determinar o destino de nossa comunidade negra.
-Queremos desemprego zero para nosso povo.
-Queremos o fim da ladroagem dos capitalistas brancos contra a comunidade negra.
-Queremos casas decentes para abrigar seres humanos.
-Queremos educação para nosso povo! Uma educação que exponha a verdadeira natureza da decadência da sociedade americana. Queremos que seja ensinada a nossa verdadeira história e nosso papel na sociedade atual.
-Queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar.
-Queremos um fim imediato da brutalidade policial e dos assassinatos de pessoas negras.
-Queremos liberdade para todos os negros que estejam em prisões e cadeias federais, estaduais, distritais ou municipais.
-Queremos que todas as pessoas negras levadas a julgamento sejam julgadas por seus pares ou por pessoas das suas comunidades negras, tal como definido pela Constituição dos Estados Unidos.
-Queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz."

Coisas que parecem tão básicas, não é mesmo?! E eles realmente não tinham isso? Eu te respondo, caro leitor: NÃO!
O problema é que a sociedade branca não estava feliz em colocar os negros como iguais. Isso levou a embates cada vez mais violentos, principalmente com policiais.

Alguns anos se passaram, agora estamos em 2016. As coisas melhoraram, não é?! Negros podem votar e podem casar com pessoas de qualquer raça (a miscigenação era proibida)! Só que o racismo ainda é dominante. O maior índice de mortes atualmente é da população negra, tanto do EUA quanto do Brasil. Policiais, todos os dias, maltratam, perseguem e até mesmo matam pessoas pelo simples fato de serem negras ou pobres (se for os dois, não tem direito nem de chorar).

Beyoncé, militante e diva como é, vem sempre tratando de questões polêmicas que precisam ser ouvidas e introduzidas na sociedade, como a questão do movimento negro e do feminismo.
As pessoas ficaram tão chocadas com o clipe e a apresentação da B no Super Bowl (clique aqui para assistir) que está rolando um boicote contra a Queen B. Acreditam nisso?!
Isso é tão absurdo que o Saturday Night Live, um programa estadunidense de humor, fez uma esquete do mundo se acabando depois da apresentação da Beyoncé, porque as pessoas estão desesperadas descobrindo que a B é negra!

Mas o que eu posso falar disso, não é mesmo?! Loira, nunca sofri preconceito racial... Só que uma coisa que eu tenho e que muitas pessoas deveriam ter também é: bom senso.
Pensando nisso, para deixar o post mais rico em informação e até mesmo em vivência e legitimidade, convidei uma socióloga muito querida, Eliane Quintiliano, que marca sua presença no Coletivo das Pretas e em diversas atividades militantes, sempre no trabalho árduo de conscientização:

"Bom, como estamos falando de polêmica, babado e confusão vamos problematizar a questão: quem pode falar sobre racismo? Samanta questionou um pouco ali em cima a sua legitimidade para falar sobre o assunto... é importante refletirmos sobre representatividade. Sim, resumindo tudo o post fala sobre representatividade. Afinal o que é isso? A representatividade é uma competência atribuída a um indivíduo ou uma entidade (político, partido, sindicato etc.) fundamentada na habilidade e reconhecimento apresentados para desempenhar tal papel. Várias gerações da população negra cresceram sem referenciais positivos de sua negritude, sempre atribuída à categoria do indesejável, ruim, feio em detrimento da estética europeia e não estou falando só em padrão de beleza não, falo em modos de vida, produção cultural, linguagem, saberes tradicionais, culinária, conhecimento intelectual etc.
O racismo é tão cruel que a ideologia do branqueamento operou com tanto êxito que teve como consequência a permanência do racismo velado e a sua naturalização. Tudo isso está enraizado no imaginário social da sociedade Ocidental, a ponto de existirem pessoas que afirmem que o racismo não existe. Really?! Eu gostaria de viver nesse mundo de conto de fadas. Mas a realidade é cruel e triste.
Todo o histórico que Samanta nos contou, basta uma simples pesquisa no google para comprovar as atrocidades. Ou seja, a história da população negra é de resistência, muito antes dos Black Panters estávamos resistindo desde a época da escravidão, a conquista da liberdade, de direitos civis e da nossa dignidade é fruto da luta de negras e negros ao longo de todos esses anos, nada nos foi dado. Portanto, não precisamos nem queremos que pessoas sem as mesmas vivências nos representem ou falem por nós, porque durante muito tempo nos mantiveram invisibilizados. Existem as pessoas que compreendem o histórico de luta de uma minoria e se colocam como apoio e não protagonista, neste caso são chamadas de aliadas e são claro, muito bem-vindas.

Artistas, militantes, intelectuais negros que se posicionam politicamente para denunciar os conflitos raciais sempre desempenharam importante papel na vida de milhares de negras e negros anônimos com mensagens de orgulho, dignidade, denúncia, empoderamento e ‘graças a deusa’, em nossa geração temos a Beyonce. Ela não ficou em cima do muro e assim como outros artistas negros desta e de outras gerações falou o óbvio: Sou negra e me orgulho disso. Afinal, por que isso incomoda tanto?! Incomoda porque adivinhem senhoras e senhores: a sociedade é racista! Tem gente tentando justificar o boicote porque ela afundou a viatura policial, cena muito simbólica que denuncia a violência policial e o extermínio da juventude negra. Desde o ano passado o movimento negro do EUA lançou a campanha #Blackslivesmatter (vida de negros importam) para denunciar o racismo institucional norte-americano. A diva está antenadíssima e transformou tudo em arte: a cultura dos estados do Sul onde vive grande parte da população negra norte-americana, o descaso do Estado, a violência policial, a beleza natural da mulher negra e o empoderamento da sua filha Blue Ivy ~ essa mal nasceu e provocou os racistas de plantão que criticaram a Beyoncé por manter o cabelo da filha natural e “solto” e pasmem: atualmente ela tem 4 anos! 
Assim como a Bey, a cantora norte-americana Nina Simone foi referência na luta contra o racismo no EUA na década de 1960, sofreu boicote da mídia e das gravadoras e caiu no ostracismo por conta disso. Estamos vendo a história se repetir mas temos a linda internet para mostrar o jogo sujo do racismo.
Somos incluídos nesse jogo sujo desde a infância, onde os referenciais de massa que nos oferecem excluem, invisibilizam e afirmam o negro como lugar do erro. As princesas da Disney, a Angélica, a Xuxa, as paquitas, as barbies, as bonecas babies, as propagandas de brinquedos infantis, produtos de beleza, os referenciais dos livros didáticos, as modelos das revistas Capricho, Todateen, Atrevida, as novelas infantis e juvenis como Malhação, os livros de heroínas e heróis, os romances, filmes no cinema, cantoras pop nacionais e internacionais, as revistas de moda e beleza, propagandas infinitas enfim, um universo de possibilidades para se inspirar em pessoas parecidas com você. A infância, adolescência e fase adulta de grande parte das pessoas negras é de negação: do cabelo, dos traços faciais, da cor da pele ~disfarçada com maquiagem e filtros em fotos~, da estrutura de seu corpo, de sua história e de sua cultura.
Você que não é negra já parou para pensar um pouquinho nos privilégios que tem? Não é coincidência que não vejamos tantas modelos negras, atrizes, crianças em propagandas, chefes políticos, cantoras pop bem-sucedidas ou ícones de beleza que sejam pessoas negras. Não é coincidência que inúmeras mulheres recorrem a alisamentos de cabelo todos os dias, não é coincidência que você só se lembre de no máximo cinco atrizes negras brasileiras, que mesmo as cantoras mais famosas de axé e funk atualmente não sejam negras, não é coincidência a praticamente inexistência de negros indicados ao Oscar, ao Grammy, Globo de Ouro, não é coincidência o pequeno número de negros da sua faculdade.
A representatividade importa, pois estamos falamos de autoestima, de afirmação e abandono do branqueamento sistemático da população e cultura negra. Para além da estética, saber a história para compreender o contexto social atual e ter consciência política sobre o quanto isso é importante é crucial para toda a sociedade.
Beyoncé é negra e tem orgulho disso. Eu sou negra e tenho orgulho disso. Isso não deveria incomodar ninguém."
Eliane sambando na cara da sociedade. Adeus, racistas!

E você, qual o papel tem desempenhado na sociedade?


*Protestantismo, para quem não sabe, é uma doutrina cristã humanista, iniciado na Contra-Reforma, que ia de encontro à diversas tradições católicas. Portanto, são religiões cristãs não-Católicas, como por exemplo a igreja Presbiteriana, Batista, etc.

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